Sempre acreditei que seríamos campeões este ano
Entrevista a José Bessa, coordenador da secção de voleibol da Juventude Pacense e treinador da equipa de iniciadas

Esta época que agora termina, representa um ano verdadeiramente histórico para o voleibol da Juventude Pacense, que conseguiu, ao fim de oito anos de procura, chegar ao tão desejado e mercido título nacional.
Este momento de grande orgulho deve-se à fantástica prestação da equipa feminina de iniciadas que venceu o título nacional da categoria, numa temporada totalmente vitoriosa, já que não perderam nenhum jogo em qualquer uma das três fases do campeonato.
José Bessa, o treinador da equipa, e responsável pela secção de voleibol, é nesta altura um homem orgulhoso pelo feito conquistado, e destaca a grande união entre todos os envolvidos, que assim conseguiram superar todas as dificuldades. Aliás, embora nunca o tivesse admitido, o coordenador do voleibol acreditava que este seria o ano de conquista de um título nacional, tendo em conta a qualidade existente.
“Esperamos oito anos por este momento.”
Quatro Linhas – Este título representa um momento extraordinário para o clube… Estavam à espera?
José Bessa – Eu posso dizer que estavamos há oito anos à espera deste momento. Nas últimas épocas tinhamos conseguido atingir algumas finais, mas nunca conseguimos vencer. Com esta equipa começamos a acreditar a partir da fase intermédia, após a vitória sobre o Alverca. Devo no entanto dizer que eu, embora nunca o tivesse dito às minhas atletas, por motivos óbvios, acreditei desde o início que tinhamos todas as condições para chegar à conquista do campeonato.
Por insistência da Câmara Municipal fizemos a fase final em Paços de Ferreira, e embora temesse que as atletas acusassem a pressão, este facto acabou por ser decisivo, já que o público também ajudou a que as atletas se suplantassem. Depois da vitória na primeira partida as jogadores agigantaram-se e tornaram-se imparáveis. Reflexo disso é o último jogo frente ao Castelo da Maia, em que não demos hipóteses. Apenas perdemos um set porque decidi dar oportunidade às jogadoras menos utilizadas, e por pouco não venciamos logo ali, o que seria um prémio merecido.
4L – Qual é o segredo do sucesso desta equipa?
J.B. – Esta é uma equipa com muita qualidade. Temos duas jogadoras de selecção, mais dez que trabalham muito, o que nos torna muito consistentes. A Rita Mota e a Clara são dois “postes” nesta equipa, e dispararam na final. Depois temos uma passadora alta, a Maria Miguel, que nunca tinhamos tido. E convém não esquecer que todas estas jogadoras são oriundas da nossa formação.
A vontade delas todas, junto com a vontade do público e dos pais, ajudou à conquista do título. Desta vez o factor casa foi bastante positivo.
4L – Qual foi o momento-chave da época?
J.B. - Na minha opinião, o momento mais importante foi a fase intermédia, já que considero que as jogadores começaram a acreditar ainda mais e dispararam para uma caminhada triunfante.
4L – Quais são agora os objectivos para esta equipa?
J.B. – Estas jogadoras vão subir todas a juvenis, embora duas ainda sejam iniciadas. Eu acredito nelas, e esta nova fase será muito importante para a sua evolução, até porque vão entrar naquilo que eu chamo de “idade da parvalheira”, em que é difícil prever o seu comportamento. Neste momento são campeãs, estão eufóricas, e espero que se consigam manter motivadas para jogar. Para o ano será difícil, por ser o primeiro de juvenis, mas acredito que daqui a dois anos poderão ser campeãs nesse escalão.
“Foi um ano muito positivo”
4L – Em termos gerais, que balanço faz deste ano?
J.B. - Este foi um ano muito positivo. Começamos com mini voleibol, que será uma equipa forte para o próximo ano. Em termos de mini masculinos, estarão presentes este fim-de-semana na fase final, o que nunca tinha acontecido. A treinadora Maria João tem feito um excelente trabalho.
Em infantis, uma equipa constituída maioritariamente por minis, conseguimos ir à fase final, o que foi muito bom. As iniciadas foram, como já falamos, campeãs. As juvenis foram um pouco a decepção, uma vez que eram uma equipa muito forte individualmente, mas não conseguiram atingir a fase final. A saída do Luís, por motivos profissionais, fez com que a equipa abanasse um pouco. Tive que remodelar as coisas, subi duas jogadoras às juniores, e conseguimos com esta equipa chegar à fase final do nacional, onde terminamos empatadas com duas equipas no primeiro lugar, mas perdemos devido ao critério de desempate.
As seniores também estiveram em bom nível, e alcançaram o objectivo da manutenção.
4L – Perder o campeonato de juniores pelos critérios de desempate terá sido certamente frustrante…
J.B. - Pode dizer-se que sim, mas a verdade é que nós partimos para essa fase final claramente como a quarta equipa da prova. No entanto, nós entramos muito bem, vencemos o primeiro jogo, perdemos no segundo dia, e voltamos a vencer no último. Tudo terminou com um empate entre três equipas, e acabamos por ficar em terceiro lugar devido aos critérios de desempate. Foi pena, foi como “morrer na praia”, mas considero que fizemos um excelente trabalho.
4L – A que se devem estes resultados?
J.B. - Estes resultados devem-se ao trabalho, e à união entre todos. Aqui somos para muitas atletas uma segunda família, e para outras somos até, segundo dizem, a primeira.
“Temos vários problemas, mas o maior é a falta de dinheiro.”
4L – Quais são as maiores dificuldades que encontra ao longo da época?
J.B. - Nós temos alguns problemas, e um deles é a mentalidade de algumas atletas. Tratando-se de desporto amador, é difícil motivar as atletas de forma a que prefiram o jogo às outras tentações da vida. Há uns tempos atrás, ninguém trocava uma final por nada, agora algumas atletas até se recusam a jogar finais por terem outros compromissos, alegando mesmo que já jogaram muitas finais. Estas coisas acontecem com as atletas mais velhas, que estudam no secundário ou na universidade. Sou obrigado a respeitar, mas não compreendo.
Depois temos dificuldades em termos de trabalho. Perdemos dois treinadores por questões profissionais, já que tiveram que ir trabalhar para longe, e aí fiquei com uma grande sobrcarga em mãos, e foi muito difícil coordenar tudo.
Temos também dificuldade em termos de locais de treino. Embora tenhamos muitas horas disponíveis e todo o apoio da Câmara, penso que o voleibol precisava de mais horas. Por exemplo, ganhamos a fase final no Pavilhão de Modelos, onde existem excelentes condições, mas nunca treinamos lá. Compreendo que existem outras equipas, mas penso que deveriam dar prioridade a quem trabalha e apresenta resultados. Naquele local poderiamos ter três equipas a treinar ao mesmo tempo, o que seria muito bom.
Por último, embora seja o principal problema, surge a questão económica, comum a todos, obviamente. Eu sei que a Câmara e a direcção nos apoiam, mas não chega. Sinto que deveriam olhar para nós de forma diferente, com mais atenção, até porque os resultados estão à vista, nós é que levamos as equipas às finais. Em termos de apoios ficamos muito aquém, mereciamos mais. Eu sei que a Câmara ajuda, inclusivamente a fase final das iniciadas foi cá no concelho porque o vereador António Coelho fez questão, e deu uma ajuda, e posso dizer que a organização até foi considerada uma das melhores, mas é preciso mais.
Mesmo eu preciso de mais ajuda, para me poder concentrar no treino em si, e tenho que andar sempre atrás de dinheiro para o fim-de-semana. Nós temos carrinhas mas estamos a pagá-las, temos deslocações a Lisboa com as seniores em que só podemos dar-lhes uma refeição, o que não é correcto. Inclusivamente, numa das últimas deslocações foi a mãe de uma das atletas que se ofereceu para pagar tudo, o que foi um belo gesto.
O nosso presidente é que se relaciona com a Câmara, não sei o dinheiro que vem ou não vem, mas a verdade é que o dinheiro que nos chega não é suficiente. Temos os nossos patrocinadores que têm sido muito importantes como a 5 à Sec, o Grupo Martins, a Óptica Boa Imagem, Cardoso Leal, Agostinho Ferreira Leal, e outros patrocinadores encostados às atletas como a Artesana, Domenicos, entre outros.
4L – Como é que vê o interesse pela modalidade no concelho?
J.B. - O nosso clube proporciona ao desporto do concelho um leque de modalidades diferentes das outras colectividades. Por isso considero que somos um clube especial. No caso do voleibol, tenho a opinião de que é uma modalidade que desperta muito interesse, e é seguida por muita gente. É claro que o sucesso desportivo também ajuda.
“As coisas têm que mudar. O meu futuro no clube decide-se quando voltar da Lousã.”
4L – Com este sucesso, como vê o futuro da sua secção?
J.B. - O meu futuro decide-se quando eu chegar da Lousã. Vai depender da direcção que será eleita no dia 29, e da reunião que teremos que ter porque isto não é só festa, também há problemas, e eu não posso continuar a assumir tudo. A minha continuidade depende dos objectivos da direcção. O meu desejo é continuar, mas é preciso que todos queiram mais para o clube.


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